Portal Terra – 03/14

Por: Mayra A.

Mostarda de Dijon, melaço de agave, flores comestíveis e anis estrelado podem parecer ingredientes pouco populares, restritos a uma parcela da sociedade disposta a pagar um preço alto por um prato de qualidade.

Mas o cenário, neste caso, é outro: direto da favela do Heliópolis, a cozinheira Thabata Neder ensina técnicas de culinária a donas-de-casa atentas, participativas, e muito dispostas a incorporarem novos hábitos alimentares em suas próprias cozinhas.

Em uma tarde chuvosa, uma plateia predominantemente feminina, de cerca de 30 pessoas, aprendia informações e dicas sobre alimentação consciente, saudável e sem desperdício. O fato de a aula ser ministrada em uma comunidade desfavorecida socialmente não impediu a profissional de escolher o uso de itens mais sofisticados para o preparo das receitas. “Não importa se estou na favela ou não. Eu estou aqui para dar a vez para o aluno”, afirma.

Adna Cristoni que levou as colegas da ong AMAI para conhecerem a aula. “Muitas coisas a gente acha que é requintado, mas dá para ver que é possível mudar alguns ingredientes, sem gastar muito, como o melaço de agave e o óleo de amendoim”, comemorou.

E a adesão foi total. Uma das participantes, Samantha Baggi, 33, assistiu a aula com mais nova das três filhas, Marina, de 1 ano e 2 meses. Moradora do Heliópolis há 22 anos, disse que pretende incorporar os novos ingredientes à sua rotina. “É interessante o curso porque ensina uma alimentação completa, com um baixo custo. Eu não uso açúcar branco em casa, por exemplo, e vou começar a comprar o melaço principalmente pensando nas minhas crianças”, disse. “Quero me dispor a ter uma variedade maior de alimentos em casa”, concluiu.

O melaço a qual se refere custa cerca de R$ 17, segundo a própria professora, que mostrou a etiqueta com o preço para as alunas. O valor agregado ao produto não tem a ver diretamente com o preço, mas sim com seu valor nutricional e benefícios à saúde, quando comparado aos adoçantes ou açúcar tradicional.

Projeto traz dicas sobre alimentação saudável e sem desperdício Foto: Ricardo Matsukawa / Terra
Projeto traz dicas sobre alimentação saudável e sem desperdício
Foto: Ricardo Matsukawa / Terra

Outra que ficou fã da novidade foi Adna Cristoni, da organização não-governamental AMAI (Associação dos Missionários do Alto do Ipiranga), que levou as colegas da instituição para conhecerem a aula, e replicarem na ONG. “Muitas coisas a gente acha que é requintado, mas dá para ver que é possível mudar alguns ingredientes, sem gastar muito, como o melaço de agave e o óleo de amendoim”, comemorou.

A aula faz parte do projeto Escolinha Philips Walita, em parceria com o Magazine Luiza, que montou uma cozinha experimental em sua loja virtual localizada bem no meio da comunidade. Quem ministra as aulas é a equipe do projeto Dedinho de Moça, formada por chefs de cozinha e nutricionistas, que busca ampliar a qualidade de vida das famílias com foco em hábitos saudáveis e alimentação saborosa.

Segundo Luiza Helena Trajano, que é presidente da rede Magazine Luiza e esteve presente na aula inaugural do curso, realizada na quarta-feira (12), o projeto deve ficar durante um ano no Heliópolis e, se der certo, será ampliado para outras comunidades. “A ideia é oferecer um processo educativo, incluindo higiene, economia e saúde, além de ensinar as pessoas a diminuírem a quantidade de lixo e o aproveitamento dos alimentos”, ressaltou.

Alimentação consciente
Quando o assunto é alimentação consciente, o buraco é mais embaixo e vai além do preço – o custo benefício tem a ver não só com o valor da comida, mas também com a forma como ela vai ser integralmente aproveitada; com o sabor, primoroso, com a qualidade e com a importância que o tema toma dentro de casa.

E é por isso que Thabata abre a aula com uma das frases que define o curso: “nada de receita, tudo na técnica”. Segundo ela, mais importante do que seguir um roteiro de ingredientes, é preciso conhecer os processos para que a pessoa se aproprie definitivamente do que vai comer e servir para seus familiares.  “Uma das saídas para a fome é aprender a cozinhar”, afirma.

Segurando um caju, ela questiona: “você não pagou pela pele? Então, quando você joga a pele, são suas moedinhas indo embora. Agora, se você bate no liquidificador com água, vira suco. Se cozinhar com açúcar, vira geleia”.

Neste dia foram feitas, em uma hora, três receitas, que você poderá ver ao pé desta matéria: caçarola de linguiça com milho, manteiga de amendoim e caju cozido em calda. O tema era “sazonalidade”.Ai, que palavra difícil, né gente?”, brincou a professora, logo explicando que o conceito nada mais é do que o produto da época, “bom para a gente comprar, porque é mais gostoso e mais barato”.

Thabata conta também que o curso também segue a temática da sustentabilidade. “Priorizar o alimento local, pensar em um comércio justo, enfim, tudo o que ronda um  mundo melhor.”

Samantha Baggi assistiu à aula com a filhinha e pretende incorporar novos ingredientes ao cardápio 
Foto: Ricardo Matsukawa / Terra

De acordo com a especialista, a maior constatação relacionada às primeiras impressões sobre o curso tem a ver com o interesse pelo que realmente é comida, “o que vem da natureza, o que vem da indústria. Não tem a ver com grau social. A maioria das pessoas ricas que eu conheço nem sabem o que estão comendo”, finaliza.

Pequenos comilões
Com a conscientização promovida pelo curso, a ideia das educadoras é também ver reflexos positivos na alimentação das crianças da comunidade. A engenheira de alimentos e chef Mayra Abucham é quem está à frente do Dedinho de Moça. Focada na consultoria em alimentação infantil, participou recentemente do quadro Meu Filho não Come, do programa Bem Estar.

Sobre o curso, ela reforça que a abordagem é mais abrangente e vai desde o uso da energia até a maneira como que os pais se relacionam com os filhos na hora do almoço. “Não é a receita que faz a diferença, e sim, todo este conjunto”.

Segundo ela, mais importante do que falar sobre comida de bebê é tocar nos hábitos alimentares.  “Uma alimentação de qualidade desde a primeira infância vai fazer uma nova geração mais saudável”, conclui.

Link da matéria completa: http://migre.me/iCroJ


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